O dia 25 de Dezembro é uma das datas comemorativas mais
esperadas do ano. Porém, maior do que isso é o simbolismo que ele carrega. A data, que já era celebrada em festas pagãs, tornou-se
mais importante quando incorporada por católicos de todo o mundo, que celebram o
nascimento de Jesus. Mesmo os não católicos fazem festa e distribuem presentes.
Foi pela importância histórica desse dia, e
principalmente pela tradição que o acompanha, que esse blog decidiu conversar
mais uma vez com alguns dos idosos que entrevistou ao longo do ano.
Nesses novos textos, dona Neuza, dona Maria e seu Luiz, que
nasceram e moram em cidades diferentes, contam histórias de sua infância. São relatos
das festas, com muita comida e bebida, das brincadeiras e tradições que nos dão
uma noção de como era o Natal de antigamente.
Dona Neuza, por Danilo O'Lopes
Árvores de Natal não havia. Tampouco enfeites nas casas.
Mas já era chegado o Natal, a data mais esperada do ano, segundo Dona Neuza.
Sua mãe era analfabeta. Não teve estudo nenhum. Mas
explicava detalhadamente o significado do Natal – claro, dentro do catolicismo,
sua religião. Isto fazia com que a data fosse motivo de comemoração, muito mais
do que o próprio aniversário ou festas juninas, por exemplo. “Às vezes, passava
o aniversário da gente e a gente nem sabia. Já as festas juninas eram mais a
reza dum terço, solta de fogos, um baile com sanfona”, conta D. Neuza.
Ceia também não tinha. Naquele tempo, morando no sítio e
sem energia elétrica na grande maioria das casas, ia-se dormir sedo. Tudo o que
tinha na véspera de Natal eram alguns doces, próximos à apertada chaminé do
fogão a lenha. Era ali por onde o bom velhinho passaria para deixar os
presentes e pegar os doces, como forma de agradecimento.
O fato de a chaminé ser estreita não era grande problema.
Sem meios de comunicação que padronizassem, o Papai Noel do imaginário de Neuza
não era rechonchudo. Era apenas velho, o que, à sua cabeça, vinha a imagem de
seu avô. Também sendo velhinho, Papai Noel não haveria de ser muito diferente
dele.
No dia seguinte, meninos provavelmente ganhariam
carrinhos, violinhas ou pandeiros; e meninas, bonecas ou panelinhas. Depois, as
crianças se reuniam para brincar. Irmãos e vizinhos. Cada qual levava seu
brinquedo novo. O pai de Neuza fazia questão de que, naquele dia, seus filhos
usassem roupas e calçados novos. Assim, o cuidado, para não se sujar, era
redobrado.
O almoço do Natal era o único no ano dado ao luxo de se
ter frango assado e refrigerantes. A família de D. Neuza não tinha geladeira.
Mas, à uma boa tubaína gelada, dava-se um jeito: “Pra não tomar quente, a gente
enchia o balde do poço de garrafinha de refrigerante e descia, punha lá dentro
do poço. Depois, tirava. Na hora de tomar, tava mais fresquinho um pouco”,
conta ela. E dá uma gargalhada, como se, à ela própria, isso soasse
extremamente rudimentar aos dias de hoje. Rindo, complementa: “Era a geladeira.
Porque nem sonhava em geladeira; nem sabia que existia.”
E assim passava-se o Natal. Para D. Neuza, restava apenas
ansiar o próximo: “o dia 25 do outro dezembro era muito esperado.”
Dona Maria, por Bruno Lourenço
Muita festa, cantigas, comidas e bebidas. Lembrar-se dos
natais que comemorou quando criança traz boas lembranças para Dona Maria. Tudo
começava na véspera de natal, quando seu pai, mãe e irmãos se juntavam para
preparar os temperos das carnes que seriam assadas no dia seguinte. Os homens,
principalmente seus irmãos, ficavam encarregados de ajudarem na busca de lenha
para o fogão feito de barro.
Para garantir uma boa festa, barracas cobertas com folhas
de bananeiras eram montadas no quintal da família. Dessa forma, elas protegiam
do sol e da chuva e também serviam para colocar as comidas que eram preparadas
dentro da casa pelas mulheres.
Como a família de Dona Maria era católica, todos se
reuniam para participar da missa do galo, que acontece à meia noite do dia 25.
Pela estrada que os levava até a igreja, que ficava no distrito de São Luiz,
ela conta que "ia a pé, em cinco irmãos, mais a mamãe e o papai. Era muito
divertido".
A festa continuava depois que retornavam da missa. Dona
Maria lembra que, diante de uma fogueira, ela, suas amigas e os rapazes das
fazendas e sitos vizinhos, faziam uma roda para cantar e dançar. "Nois nem dormia, virava a noite em volta
da fogueira e [dançava] muito forró", ela conta.
No natal, logo pela manhã, os foliões de Santos Reis,
figuras populares, chegavam ao sitio onde moravam. "Eles chegavam,
cantavam abençoando a casa, almoçavam, depois deitavam no pasto para
descansar" conta Dona Maria. Após o almoço era servido um bom doce de
mamão feito por sua mãe.
O uso de bebidas alcoólicas não era exagerado. "Era
festa, né, estávamos comemorando o nascimento do menino Jesus. Precisava
respeitar." relembra dona Maria.
O nome daquele senhor de gorro, blusa e calças vermelhas,
botas e barba e cabelo branco não é mencionado em nenhum momento. Para ela, o
importante do natal era comemorar o nascimento de Jesus. Tanto que na hora do
almoço de natal era feita uma oração do pai nosso e depois do almoço era rezado
o terço.
Seu Luiz, por Filipe Muniz
A preparação para o dia de Natal começava bem cedo na
casa em que moravam o Seu Luiz e seus pais e irmãos. A sua mãe arrumava a casa
logo de manhã à espera de visitas que pudessem aparecer. Para essa família
tradicionalmente católica de origem espanhola, o dia 25 de Dezembro não poderia
ter outro significado. “Natal é relembrar o nascimento de Jesus. Para nós,
cristãos, é um dia diferente”, explica seu Luiz.
A diferença também era percebida na alimentação. A sua mãe
fazia rosquinhas de pinga, assava um frango, dos que eram criados no quintal, e
eventualmente fazia pão doce e outras receitas de originárias da Espanha, como
o mantecal e uma bebida chamada anizete (que era feita com pinga, erva doce e
aniz). “A gente pedia guaraná, e o pai comprava”, lembra.
Na época, o Seu Luiz tinha oito anos de idade. Como a
maioria das crianças, ainda acreditava em Papai Noel. “Eu tenho antipatia de
Papai Noel até hoje, porque eu fui enganado”, contou logo no inicio da
entrevista. A história é curiosa: Ele e seus irmãos perguntavam para os meninos
de famílias com melhores condições financeiras o que eles faziam para ganhar
presentes. Eles respondiam que bastava colocar um pouco de ‘graminha’ em baixo
da cama ou um sapato em cima do fogão. No outro dia, quando acordassem, o
presente estaria ali. Então, todo ano seu Luiz fazia o mesmo, mas sem nunca
receber nenhum presente. Ele conta que perguntava para a sua mãe o porquê não
ter ganhado nada. “O Papai Noel errou nossa casa”, ela respondia. Aquela
tradicional canção natalina diz que “seja rico, ou seja pobre, o velhinho
sempre vem”. Mas parece que o mito do bom velhinho não sobrevive à desigualdade
social.
Mas o presente dado às crianças pobres pela prefeitura da
cidade em que morava já era suficiente para fazer a alegria da garotada: balas
doces e um pedaço de tecido, que depois era cortado e costurado pela sua mãe em
uma maquina de costura manual. Daí surgia uma nova peça de roupa para o filho. Como
de costume, a felicidade de seu Luiz vinha das pequenas coisas.
Hoje, ele espera passar o Natal com saúde, junto com o
irmão, celebrando o nascimento do Menino Jesus. “Natal é solidariedade. É
confraternização. É partilha com quem não têm”, ensina.
