![]() |
| Imagens: Filipe Muniz |
Foi em uma antiga casinha de madeira no fundo de sua residência que o
seu Luiz me recebeu. É um lugar especial que, segundo o dono, serve para
receber amigos. As paredes são cobertas de objetos, assim como o chão. No
canto, um fogão a gás rodeado de mantimentos e no meio, uma cadeira dessas de
varanda. Tampas de panelas compartilham espaço com calendários, anotações em
papéis, sacolas e, entre outras coisas, um singelo crucifixo.
-Pode anotar aí que eu sou católico - anuncia logo de cara.
Começo a anotar suas informações.
Luiz Martins Gomes. Nascido em 05 de Maio de 1940 em Taquaritinga, São
Paulo. Como ele mesmo define, filho de uma família pobre e católica. Aos dois
anos, eles vieram para o estado do Paraná pela primeira vez. Moraram por um ano
no sítio do avô até que voltaram para São Paulo. Dessa vez, para Álvares Machado. Foi em 1954 que voltaram para o Paraná. No início, para o município de Primeiro de Maio e depois, em 1982, para Santa Margarida, distrito de Bela Vista do Paraíso, onde mora até hoje.
Seu Luiz começou a trabalhar com 12 anos. Caminhava com a mãe por três
quilômetros todos os dias até o local de trabalho. Colhiam algodão, batata e
amendoim.Mesmo vivendo na pobreza, seu Luiz não se queixa das dificuldades. A alegria que carrega até hoje lhe permite rir até desses momentos.
-Eu ia no grupo (como chamavam as escolas) descalço, porque a gente não
podia comprar calçado - conta ele, dando risadas.
Na infância, não teve brinquedos. Leite, somente o da mãe. A carne das
refeições vinha, na maioria das vezes, das galinhas que criavam. Porém, ele
nunca passou fome. O pai trabalhava na lavoura, em pequenas propriedades, e não
faltava trabalho. Seu Luiz lembra que na época da escola ganhava a merenda e os
materiais escolares. Já os alunos que tinham condições, pagavam pela merenda. Pergunto a ele
se foi uma infância feliz. Sem pensar duas vezes, ele diz que sim. A
felicidade, explica ele, era poder estudar, trabalhar e ter o que comer.
-Você marcou que eu sou católico? - pergunta ele, interrompendo a
conversa.
Ao comparar o país de agora com o de sua juventude, ele não tem dúvidas:
Diz que se Jesus lhe aparecesse com uma proposta de voltar ao passado, agradeceria
e recusaria o convite. Quando pergunto o porquê ele me diz que a qualidade de
vida hoje é muito melhor. O posto de saúde, a poucos metros de sua casa, lhe
garante atendimento quando necessário e os medicamentos são gratuitos. Lembra que antigamente os postos de saúde não tratavam todas as doenças e muitas
pessoas recorriam a curandeiros e remédios naturais. Era comum ouvir que um
conhecido morreu de estupor, como
chamavam a morte por pressão alta.
-Naquele tempo o Brasil era muito atrasado. Não era que nem hoje, não - disse.
Os valores morais que hoje parecem um pouco perdidos estão muito
presentes no seu Luiz. É um homem que valoriza a boa conduta, o trabalho e a
importância dos estudos. E isso ele faz até hoje. "Eu sou católico. Amo a
minha igreja", repete. A religião é o assunto que mais lhe agrada. E não é só uma questão de fé, mas de
conhecimento dos contextos históricos que rodeiam as histórias bíblicas. Da Roma antiga até o novo
Papa, passando pelos apóstolos, a fundação da Igreja Católica e a atuação dos
padres nos dias de hoje, seu Luiz me contou um pouco do que estuda. Em alguns minutos, explicou toda a
história de pentecostes e avisou: se fossemos falar de religião, ficaríamos ali
por mais algumas horas.
- Deus ama a todos. Ele te ama e me ama também. Mesmo com as minhas
pingas – garante ele, rindo.
No ano de 2000, seu Luiz se aposentou, depois de uma vida inteira trabalhando na roça. "Me considero rico. Tenho a minha aposentadoria. dá pra comprar o que eu preciso", afirma com convicção. Solteiro até hoje, ele passa os dias naquela casinha, tocando violão, cantando as modas de viola e
lendo alguma das cinco bíblias que possui.
Dizem que é possível encontrar a felicidade nas pequenas coisas. Seu Luiz encontrou.
Aliás, eu falei que ele é católico?




