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O dia 25 de Dezembro é uma das datas comemorativas mais esperadas do ano. Porém, maior do que isso é o simbolismo que ele carrega. A data, que já era celebrada em festas pagãs, tornou-se mais importante quando incorporada por católicos de todo o mundo, que celebram o nascimento de Jesus. Mesmo os não católicos fazem festa e distribuem presentes.

Foi pela importância histórica desse dia, e principalmente pela tradição que o acompanha, que esse blog decidiu conversar mais uma vez com alguns dos idosos que entrevistou ao longo do ano.

Nesses novos textos, dona Neuza, dona Maria e seu Luiz, que nasceram e moram em cidades diferentes, contam histórias de sua infância. São relatos das festas, com muita comida e bebida, das brincadeiras e tradições que nos dão uma noção de como era o Natal de antigamente.



Dona Neuza, por Danilo O'Lopes

Árvores de Natal não havia. Tampouco enfeites nas casas. Mas já era chegado o Natal, a data mais esperada do ano, segundo Dona Neuza.

Sua mãe era analfabeta. Não teve estudo nenhum. Mas explicava detalhadamente o significado do Natal – claro, dentro do catolicismo, sua religião. Isto fazia com que a data fosse motivo de comemoração, muito mais do que o próprio aniversário ou festas juninas, por exemplo. “Às vezes, passava o aniversário da gente e a gente nem sabia. Já as festas juninas eram mais a reza dum terço, solta de fogos, um baile com sanfona”, conta D. Neuza.

Ceia também não tinha. Naquele tempo, morando no sítio e sem energia elétrica na grande maioria das casas, ia-se dormir sedo. Tudo o que tinha na véspera de Natal eram alguns doces, próximos à apertada chaminé do fogão a lenha. Era ali por onde o bom velhinho passaria para deixar os presentes e pegar os doces, como forma de agradecimento. 

O fato de a chaminé ser estreita não era grande problema. Sem meios de comunicação que padronizassem, o Papai Noel do imaginário de Neuza não era rechonchudo. Era apenas velho, o que, à sua cabeça, vinha a imagem de seu avô. Também sendo velhinho, Papai Noel não haveria de ser muito diferente dele.

No dia seguinte, meninos provavelmente ganhariam carrinhos, violinhas ou pandeiros; e meninas, bonecas ou panelinhas. Depois, as crianças se reuniam para brincar. Irmãos e vizinhos. Cada qual levava seu brinquedo novo. O pai de Neuza fazia questão de que, naquele dia, seus filhos usassem roupas e calçados novos. Assim, o cuidado, para não se sujar, era redobrado.

O almoço do Natal era o único no ano dado ao luxo de se ter frango assado e refrigerantes. A família de D. Neuza não tinha geladeira. Mas, à uma boa tubaína gelada, dava-se um jeito: “Pra não tomar quente, a gente enchia o balde do poço de garrafinha de refrigerante e descia, punha lá dentro do poço. Depois, tirava. Na hora de tomar, tava mais fresquinho um pouco”, conta ela. E dá uma gargalhada, como se, à ela própria, isso soasse extremamente rudimentar aos dias de hoje. Rindo, complementa: “Era a geladeira. Porque nem sonhava em geladeira; nem sabia que existia.”

E assim passava-se o Natal. Para D. Neuza, restava apenas ansiar o próximo: “o dia 25 do outro dezembro era muito esperado.”



Dona Maria, por Bruno Lourenço

Muita festa, cantigas, comidas e bebidas. Lembrar-se dos natais que comemorou quando criança traz boas lembranças para Dona Maria. Tudo começava na véspera de natal, quando seu pai, mãe e irmãos se juntavam para preparar os temperos das carnes que seriam assadas no dia seguinte. Os homens, principalmente seus irmãos, ficavam encarregados de ajudarem na busca de lenha para o fogão feito de barro.

Para garantir uma boa festa, barracas cobertas com folhas de bananeiras eram montadas no quintal da família. Dessa forma, elas protegiam do sol e da chuva e também serviam para colocar as comidas que eram preparadas dentro da casa pelas mulheres.

Como a família de Dona Maria era católica, todos se reuniam para participar da missa do galo, que acontece à meia noite do dia 25. Pela estrada que os levava até a igreja, que ficava no distrito de São Luiz, ela conta que "ia a pé, em cinco irmãos, mais a mamãe e o papai. Era muito divertido".

A festa continuava depois que retornavam da missa. Dona Maria lembra que, diante de uma fogueira, ela, suas amigas e os rapazes das fazendas e sitos vizinhos, faziam uma roda para cantar e dançar. "Nois nem dormia, virava a noite em volta da fogueira e [dançava] muito forró", ela conta.

No natal, logo pela manhã, os foliões de Santos Reis, figuras populares, chegavam ao sitio onde moravam. "Eles chegavam, cantavam abençoando a casa, almoçavam, depois deitavam no pasto para descansar" conta Dona Maria. Após o almoço era servido um bom doce de mamão feito por sua mãe.

O uso de bebidas alcoólicas não era exagerado. "Era festa, né, estávamos comemorando o nascimento do menino Jesus. Precisava respeitar." relembra dona Maria.

O nome daquele senhor de gorro, blusa e calças vermelhas, botas e barba e cabelo branco não é mencionado em nenhum momento. Para ela, o importante do natal era comemorar o nascimento de Jesus. Tanto que na hora do almoço de natal era feita uma oração do pai nosso e depois do almoço era rezado o terço.



Seu Luiz, por Filipe Muniz

A preparação para o dia de Natal começava bem cedo na casa em que moravam o Seu Luiz e seus pais e irmãos. A sua mãe arrumava a casa logo de manhã à espera de visitas que pudessem aparecer. Para essa família tradicionalmente católica de origem espanhola, o dia 25 de Dezembro não poderia ter outro significado. “Natal é relembrar o nascimento de Jesus. Para nós, cristãos, é um dia diferente”, explica seu Luiz.

A diferença também era percebida na alimentação. A sua mãe fazia rosquinhas de pinga, assava um frango, dos que eram criados no quintal, e eventualmente fazia pão doce e outras receitas de originárias da Espanha, como o mantecal e uma bebida chamada anizete (que era feita com pinga, erva doce e aniz). “A gente pedia guaraná, e o pai comprava”, lembra.

Na época, o Seu Luiz tinha oito anos de idade. Como a maioria das crianças, ainda acreditava em Papai Noel. “Eu tenho antipatia de Papai Noel até hoje, porque eu fui enganado”, contou logo no inicio da entrevista. A história é curiosa: Ele e seus irmãos perguntavam para os meninos de famílias com melhores condições financeiras o que eles faziam para ganhar presentes. Eles respondiam que bastava colocar um pouco de ‘graminha’ em baixo da cama ou um sapato em cima do fogão. No outro dia, quando acordassem, o presente estaria ali. Então, todo ano seu Luiz fazia o mesmo, mas sem nunca receber nenhum presente. Ele conta que perguntava para a sua mãe o porquê não ter ganhado nada. “O Papai Noel errou nossa casa”, ela respondia. Aquela tradicional canção natalina diz que “seja rico, ou seja pobre, o velhinho sempre vem”. Mas parece que o mito do bom velhinho não sobrevive à desigualdade social.

Mas o presente dado às crianças pobres pela prefeitura da cidade em que morava já era suficiente para fazer a alegria da garotada: balas doces e um pedaço de tecido, que depois era cortado e costurado pela sua mãe em uma maquina de costura manual. Daí surgia uma nova peça de roupa para o filho. Como de costume, a felicidade de seu Luiz vinha das pequenas coisas.

Hoje, ele espera passar o Natal com saúde, junto com o irmão, celebrando o nascimento do Menino Jesus. “Natal é solidariedade. É confraternização. É partilha com quem não têm”, ensina.




Boa noite!

Luzivaldo, conhecido como Lucas, morador de rua.

Era uma quinta-feira à noite, fui gravar um trabalho para faculdade, um mini documentário, no Centro Espírita Nosso Lar, em Londrina. Chegando lá, teria que esperar ao menos uma hora minha fonte, e percebi que todos chegavam e cumprimentavam um morador de rua, Lucas. Ele estava trabalhando como flanelinha. À medida que as pessoas entravam e conversavam com Lucas, fui me sensibilizando, era um carinho enorme.

Lucas na verdade se chama Luzivaldo, tem esse apelido desde criança, todos na família o chamam assim. Ele tem 51 anos e está há dois anos cuidando dos carros no Nosso Lar. Ele me conta que foi muito difícil conseguir esse espaço para trabalhar, “Foi uma guerra terrível pra eu conseguir isso aqui. Já veio até ameaça”.

A gratidão de Lucas e dos freqüentadores do centro são evidentes. “Eu só agradeço a Deus, tem gente até que deixa o carro aberto aí. Às vezes só por esquecer, mas às vezes me dizem ‘ah! Você está aí Lucas!’, é gratificante”. Durante a entrevista, passou uma moça de carro e entregou um lanche a ele. “Não vim hoje, mas não me esqueci de você Lucas!”, disse ela.
Na década de 1980, sua família, natural de São Luís do Maranhão, deixa a cidade para ir a Goiás, em busca de uma vida melhor. Mas Lucas não parou por lá, morou no Rio de Janeiro, São Paulo, Foz do Iguaçu, entre outras cidades. Luzivaldo me confessa que é morador de rua por opção, “É do coração mesmo”.

Luzivaldo nutri um amor por Londrina e pelo Centro muito grande, “Essa cidade é abençoada. Esse carinho que você vê aqui é uma dádiva, isso me prendeu aqui”. Depois desses dois anos no Centro Espírita, ele diz se considerar Espírita também, participa de palestras e passes, “Toda quarta-feira de manhã vou lá cantar hinos com eles”. Ele completa, “Não tem palavra que pague essa forma de dizerem pra mim ‘Muito obrigada, que Deus abençoe!’. Quando cheguei aqui e escutei isso, me pegou, porque eu sempre abençoava minha filha desse jeito”.

A trajetória de Lucas é extensa, como ele mesmo me confessou, já fez muita coisa errada. Mas hoje, vê a vida de uma forma diferente, “Tipo assim, dizem que metade da vida você faz ‘cagada’, e a outra metade é pra consertar. Não fazer mais besteira é uma forma de consertar né? A vida é uma escola. Eu bebo, fumo e faço até coisas piores, mas aqui é tudo na minha responsabilidade, quando estou aqui, tudo muda”, afirma ele.

No decorrer da entrevista, pergunto a Lucas sobre a violência que os moradores de rua sofrem, “A violência é grátis. Acredito que a maior violência para o morador de rua, é o próprio morador de rua. Aqui, me tratam bem, porque eu trato eles bem, é recíproco”, conclui ele.


Em tempos de tanto ódio, ao ver toda essa consideração com Lucas, saí de lá grata, por saber que ainda existem pessoas que se solidarizam-se com o próximo. Como um dos maiores nomes do segmento Espírita no Brasil, Chico Xavier disse: “O Cristo não pediu muita coisa, não exigiu que as pessoas escalassem o Everest ou fizessem grandes sacrifícios. Ele só pediu que nos amássemos uns aos outros”. Lucas é amado, e ele mesmo fala sobre a confiança, honestidade e respeito que tem e recebe, como em uma família, “é tipo uma família aqui. É uma dádiva. Nunca deixei de receber ao menos um boa noite!”.
A praça era muito frequentada, as famílias, os casais de namorados sempre se reunião neste espaço para se divertirem.




 São seis horas da tarde do dia 22 de maio quando entro na circular (ônibus) com destino à Irerê. Com aproximadamente dois mil habitantes, aparentando ser um lugar pacato o Distrito de Irerê faz parte do município de Londrina.
 Chego por volta das sete e meia da noite. Apeio no terminal e sigo rumo ao endereço de uma amiga que cede um quarto para passar a noite. Deveria ter levado uma blusa a mais, fazia um frio naquela noite.
  Ao chegar à casa da Cris, seu filho me espera para mostrar o quarto, e me pergunta se eu quero ir à igreja ou aguardar na casa até eles chegarem. Decido aguardar, assim tenho tempo para elaborar as perguntas para minha entrevistada.
  Por volta das dez horas da noite a Cris chega da igreja, e me avisa que estão preparando uma festa surpresa para a filha da Nena. Então, o silêncio que estava na casa é tomado por um monte de pessoas ajudando a preparar a festa da moça. Aproveito a oportunidade para tirar algumas fotos. Por volta da uma da madruga, me retiro para descansar.
 Levanto por volta das nove horas da manhã, do domingo, escovo os dentes e vou na cozinhar preparar um café. A entrevista esta marcada ás dez horas, mas Nena recebe a visita de parentes, decidimos adiar. Ela diz para marcamos depois do almoço, - assim todos já foram embora!

  Às três da tarde consigo iniciar a entrevista!

 Sônia Aparecida Ferreira, 47 anos, conhecida pelo apelido de Nena é natural de Taquaruna, patrimônio próximo a Irerê. Mora no distrito a mais de trinta anos, e nos conta que nunca morou em outro lugar que não fosse próximo a Irerê.
Sônia conhecida como "Nena" (Foto: Bruno Lourenço)
  A primeira pergunta que faço a Sônia é porque seu apelido é Nena? Ela diz: - "Então, quando era pequena, meu irmão não conseguia falar nene e falava Nena. Fui crescendo e as pessoas continuaram a me chamar de Nena".
  Ao falar de sua infância Nena nos conta que seu pai mudava muito, passando por várias cidades pequenas, fazendo trabalhos como "gato" e também contratava pessoas para trabalhar com ele, mas sempre estavam de volta a Irerê. "Quando tinha onze anos nos mudamos dentro do distrito". As pessoas das regiões próximas vinham para Irerê fazer compras de produtos, alimentos. Na década de 80 existiam muitas vendas. Atualmente é apenas dois mercadinhos, duas vendas e muitos bares.
  O nome do distrito "Irerê" que na língua indígena significa Marreco, ave que foi símbolo do distrito. Que segundo dados acessados no portal da prefeitura, existia e existe até de hoje um rebeirão no qual as aves iam tomar banho e nadar durante o dia. Quando as pessoas estavam próximas, de longe avistavam de longe as aves nadando no ribeirão. O distrito era para se chamar Marrecas, mas já existia uma cidade no Paraná com esse nome, optando por colocar Irerê.
Marrecas (Foto: Retirada da internet)
 "A praça era muito frequentada, as famílias levavam suas crianças para brincar, os casais de namorados sempre se reunião para namorarem", nos conta Nena.
  Quando o assunto era festa, Nena com seu peito cheio de ar diz: "Na década de 1980, embora eu fosse uma mocinha, existia um salão na parte de baixo do distrito que tinha baile nos finais de semana".
 As festas públicas sempre juntavam muitas pessoas, a igreja católica organizava e organiza até hoje uma festa de comemoração ao padroeiro do distrito.  Irerê é um distrito que parou no tempo, o lugar deixou de evoluir e o pouco que se encontra hoje não supre as necessidades das famílias, tendo que recorrer a Londrina par comprar produtos.
  Nena nos conta que para criar seus filhos foi uma época difícil, a falta de serviços nas lavouras, acabava por acarretar a falta de dinheiro dentro da casa. Mas, contudo conseguiu criar seus filhos, hoje com 24 e 29 anos.

Mapa visto de cima do Distrito de Irerê (Imagem: Google Maps)
  Hoje Nena é diarista, trabalha no centro de Londrina, e diz não abrir mão do seu serviço e também de onde mora. Ela considera o lugar pacato, mas é tranquilo e sossegado. Assim como Nena muitos outros moradores não abrem mão de seu cantinho. 
Imagens: Filipe Muniz


Foi em uma antiga casinha de madeira no fundo de sua residência que o seu Luiz me recebeu. É um lugar especial que, segundo o dono, serve para receber amigos. As paredes são cobertas de objetos, assim como o chão. No canto, um fogão a gás rodeado de mantimentos e no meio, uma cadeira dessas de varanda. Tampas de panelas compartilham espaço com calendários, anotações em papéis, sacolas e, entre outras coisas, um singelo crucifixo.

-Pode anotar aí que eu sou católico - anuncia logo de cara.

Começo a anotar suas informações.  Luiz Martins Gomes. Nascido em 05 de Maio de 1940 em Taquaritinga, São Paulo. Como ele mesmo define, filho de uma família pobre e católica. Aos dois anos, eles vieram para o estado do Paraná pela primeira vez. Moraram por um ano no sítio do avô até que voltaram para São Paulo. Dessa vez, para Álvares Machado. Foi em 1954 que voltaram para o Paraná. No início, para o município de Primeiro de Maio e depois, em 1982, para Santa Margarida, distrito de Bela Vista do Paraíso, onde mora até hoje.

Seu Luiz começou a trabalhar com 12 anos. Caminhava com a mãe por três quilômetros todos os dias até o local de trabalho. Colhiam algodão, batata e amendoim.Mesmo vivendo na pobreza, seu Luiz não se queixa das dificuldades. A alegria que carrega até hoje lhe permite rir até desses momentos.

-Eu ia no grupo (como chamavam as escolas) descalço, porque a gente não podia comprar calçado - conta ele, dando risadas.

Na infância, não teve brinquedos. Leite, somente o da mãe. A carne das refeições vinha, na maioria das vezes, das galinhas que criavam. Porém, ele nunca passou fome. O pai trabalhava na lavoura, em pequenas propriedades, e não faltava trabalho. Seu Luiz lembra que na época da escola ganhava a merenda e os materiais escolares. Já os alunos que tinham condições, pagavam pela merenda. Pergunto a ele se foi uma infância feliz. Sem pensar duas vezes, ele diz que sim. A felicidade, explica ele, era poder estudar, trabalhar e ter o que comer.

-Você marcou que eu sou católico? - pergunta ele, interrompendo a conversa.

Ao comparar o país de agora com o de sua juventude, ele não tem dúvidas: Diz que se Jesus lhe aparecesse com uma proposta de voltar ao passado, agradeceria e recusaria o convite. Quando pergunto o porquê ele me diz que a qualidade de vida hoje é muito melhor. O posto de saúde, a poucos metros de sua casa, lhe garante atendimento quando necessário e os medicamentos são gratuitos. Lembra que antigamente os postos de saúde não tratavam todas as doenças e muitas pessoas recorriam a curandeiros e remédios naturais. Era comum ouvir que um conhecido morreu de estupor, como chamavam a morte por pressão alta.

-Naquele tempo o Brasil era muito atrasado.  Não era que nem hoje, não - disse.

Os valores morais que hoje parecem um pouco perdidos estão muito presentes no seu Luiz. É um homem que valoriza a boa conduta, o trabalho e a importância dos estudos. E isso ele faz até hoje. "Eu sou católico. Amo a minha igreja", repete. A religião é o assunto que mais lhe agrada.  E não é só uma questão de fé, mas de conhecimento dos contextos históricos que rodeiam as histórias bíblicas. Da Roma antiga até o novo Papa, passando pelos apóstolos, a fundação da Igreja Católica e a atuação dos padres nos dias de hoje, seu Luiz me contou um pouco do que estuda. Em alguns minutos, explicou toda a história de pentecostes e avisou: se fossemos falar de religião, ficaríamos ali por mais algumas horas.

- Deus ama a todos. Ele te ama e me ama também. Mesmo com as minhas pingas – garante ele, rindo.

No ano de 2000, seu Luiz se aposentou, depois de uma vida inteira trabalhando na roça. "Me considero rico. Tenho a minha aposentadoria. dá pra comprar o que eu preciso", afirma com convicção. Solteiro até hoje, ele passa os dias naquela casinha, tocando violão, cantando as modas de viola e lendo alguma das cinco bíblias que possui.  Dizem que é possível encontrar a felicidade nas pequenas coisas. Seu Luiz encontrou.


Aliás, eu falei que ele é católico?

Só com Dona Neuza, são mais de 54 anos (veja narrativa dela clicando aqui). Mas para ainda além disso, ele tem muita história para contar.

Era 27 de junho de 1950. Seu Zé tem boa memória. Tinha 12 anos de idade. Saído da zona rural do município de Iacanga (SP), chegava a Sabáudia (PR), depois de um dia e meio de viagem. “Escureceu, nói paremo em Assis. Posemo lá. Noutro dia cedo, saímo. Cheguemo aqui era uma hora da tarde”, diz.

No caminhão, vinham quatro mudanças: duas de pessoas solteiras e duas de famílias. “Mudamo num caminhãozinho 48, véi. Quatro mudança lá em cima... imagina... era só pauleira veia”, ele brinca.
Quando chegou, já tinha o terceiro ano do primário. Para completar o quarto, na nova cidade, tinha de andar seis quilômetros – a pé. Depois ajudou a construir o Colégio Sabáudia, onde estudou por mais uns seis meses.

Seu Zé também lidou com roça: “fomo trabalhar. Coiê café... Dispoi nói fomo morar no sítio; tocar empreitada.” Trabalhou mais 18 anos como vigilante bancário e ainda mais três como responsável por cuidar do ginásio de esportes do município. Então se aposentou.

Assalto ao banco
Era 9 de junho de 1982. Seu Zé não falha a memória. Um carro com cinco homens para em frente ao então Banco Sul Brasileiro, onde ele fazia guarda. Dois dos homens descem e entram. Junto com Seu Zé, está outro vigilante, de mesmo nome. “Eu e o compadre Zé tava encostado na parede do banco (do lado de fora, à porta). Eu falei: ‘esses cara num é daqui. É de fora. Vamo vê o quê que é.’ Quando nói viremo pra entrar no banco, vinha outro cara no meio da rua lá. (Chegando) Na beira do meio-fio, ele atirou.”

Como dois assaltantes já tinham entrado no banco, e Seu Zé e seu compadre, desconfiados, também resolveram entrar, um dos integrantes da quadrilha atirou, para evitar que os guardas interrompessem o assalto.

A bala, de nove milímetros, passou entre os dois compadres. "Depois ela tava lá, no chão. Nói peguemo ela. Nove milímetro. Fez um buracão assim na parede", gesticula.

Seu Zé conta que o carro em que eles estavam foi roubado na cidade de Dois Vizinhos. A mesma quadrilha, segundo ele, também fez assaltos a banco em outras cidades. "Depois, com o tempo, pegaram eles. Ih... eles assaltaram um punhado de banco: Banco do Brasil de Arapongas, de Rolândia... Lá em Arapongas eles atiraram na mão do Waldir (guarda daquele banco, conhecido de seu Zé). Quebrou o braço dele. Teve que amputar."

Com frio e carça curta


José de Oliveria (Foto: Danilo O'Lopes)

Ao sol, pra se esquentar, Seu Zé conta como era passar o inverno naquela época. "Não tinha blusa. Nem ouvia falar em blusa."
- E como é que fazia pra enfrentar o frio?
"Não sei. Não tinha frio, parece. O povo acostumava."

Ele foi usar blusa, pela primeira vez, só depois de casado. Dona Neuza que lhe comprou.

Pois então conta como era a vestimenta à época. Passando as mãos a pelo menos um palmo acima dos joelhos, diz que usavam "carça curta".
- Calção? Shorts?
"Não! Carça memo. Carça curta. Molecada assim, todo o mundo usava."

Talvez percebendo que seu interlocutor não tinha entendido muito, ele complementa: "Era uma carcinha, memo. Tipo um short, mai benfeitinho."

Um pequeno trator passa à rua e Seu Zé interrompe. Crítico daqueles que dizem que vivemos uma crise, ele comenta: "Aí, ó. Isso que é mordomia. De primeiro nói ia fazer o colégio ali, ó, batia o cimento tudo na mão, na pá. Hoje vai pegar um pedacinho de terra aí, manda me chamar a maquininha. Depois fala em crise. Que crise? Hoje todo o mundo tem mordomia."

Com bigode e carça comprida

O uso das calças curtas e compridas, segundo Seu Zé
Depois, para retomar o assunto, este entrevistador pergunta: "Então, bermuda era só criança que usava?" Seu Zé, indignado, responde: "Ah, no meu tempo não tinha bermuda, não, sô! De uns ano pra cá que começou esse negócio de bermuda."
- Não. Digo essas calças curtas, que o senhor fala.
"Ah, sim! Ixi... home não punhava aquilo mai nem que... Hoje eu fico oiano. Era o traje. O que tinha era isso aí. As molecada usava carça curta e os home, carça comprida. E as muié, só vestido. Não tinha carça comprida pra muié. De jeito nenhum. De uns ano pra cá que começou esse negócio de muié só andar de carça comprida. Não tinha, não. Só vestido."

Aos 13 anos, então, Seu Zé tornava-se já um homenzinho. Todo faceiro, admirava suas calças compridas, seguradas por uma cinta: "Eu num via a hora de pôr carça comprida. O dia que eu puis, só ficava oiano. Uma cintinha... Carça comprida era cinta; carça curta era uma arça, suspensório de pano (que passava por sobre os ombros)."

Depois, nunca mais usou as tais calças curtas.

A mesma coisa aconteceu com o bigode. Nunca tirou. Apareceu, ficou. "Desde o primeiro fio", diz.

Embora já fosse homem, Seu Zé só foi se casar aos 24. Ele mais D. Neuza tiveram quatro filhos: dois homens e duas mulheres. As calças compridas, usa até hoje. O bigode, também. Mas apesar de viçoso, Seu Zé declara: "Já pensei umas par de veiz de cortar, mai eu fico oiano... falo: 'agora num vou cortar mai, não. Já tá no fim da... no fim da picada, já, tamém.'"

Leia também a história de D. Neuza: "Era filha e era pai, era aluna e professora"

Seu Antônio e a filha na varanda de sua casa. (Foto: Filipe Muniz)




Na beira da rodovia PR-090, afastada das residências comuns do distrito de Santa Margarida, em Bela Vista do Paraíso, existe uma casa muito simples, que resiste ao tempo. Ela fica escondida lá no alto do morro, atrás de uma enorme árvore centenária, e às vezes passa despercebida em meio à correria dos tempos modernos. Ali mora o senhor Antonio dos Reis, que também carrega algumas das características da casa. É um homem simples, que resiste ao tempo e vive esquecido pelas pessoas. Prestes há completar 90 anos, ele diz não ter muito que comemorar. “Se eu contar o que passo aqui, muita gente não acredita”, disse ele, já no começo da entrevista.  Antônio tem um problema em um dos joelhos, o que torna difícil uma simples caminhada até o mercadinho da esquina. Para caminhar até a igreja, a três quarteirões de sua casa, ele conta que chegou a gastar uma hora. Hoje lutando para viver apenas com o dinheiro da aposentadoria, ele se lembra muito bem dos tempos antigos, quando trabalhava nas fazendas.

Natural de Montes Claros, no estado de Minas Gerais, seu Antônio começou a trabalhar com sete anos. Como boa parte das pessoas da época, ele nunca foi alfabetizado. O pai dizia que era mais importante aprender a trabalhar: “Se não, vai aprender o que? Roubar? Não, trabalhar”. O primeiro serviço foi com o pai, quando aprendeu a cuidar da lavoura. Depois trabalhou colhendo algodão. Mas não gostou do trabalho. “As unhas ficam todas arrasadas”, explicou ele. Mudou de ramo. Trabalhou em plantações de cana antes de voltar para a lavoura. Roçou, carpiu, plantou e colheu. "Aprendi de tudo", conta.

O casamento aconteceu aos 22 anos. Sua esposa, Josefina Cardoso dos Reis, era conhecida da família.  Os pais dela apareciam de tempo em tempo para vender painas,  que serviam para encher os colchões e travesseiros. Essas eram as únicas ocasiões em que eles namoravam. Do casamento vieram sete filhos, quatro homens e três mulheres. Quatro  faleceram. Dois deles, um homem e uma mulher, com a doença de chagas, transmitida pelo Bicho Barbeiro; um com  anemia e outra por choque elétrico.  A terceira filha, Eva, teve derrame e hoje não fala e anda com dificuldade.

Eva, a filha de seu Antônio. (Foto: Filipe Muniz)

Do norte do Minas Gerais, seu Antônio se mudou para o norte do Paraná, onde vive nos últimos 35 anos. Trabalhando na fazenda Rancho Alegre, a profissão continuou a mesma. Com ela criou os filhos e os netos. A casa simples na qual mora hoje pertence aos donos dessa fazenda, que prometeram doá-la ao atual morador. Porém, depois do falecimento do antigo dono, a casa, juntamente com as terras da fazenda, passaram a fazer parte de um inventário, o que dificultou a doação.

Com o adoecimento de sua esposa, Josefina, seu Antônio teve que parar de trabalhar. Passou a viver de sua aposentadoria.  Ela, que sempre trabalhou, mas não tinha registro em carteira, não teve a mesma sorte. Foi então que a vida piorou para a família.  Em um determinado mês o dinheiro que seu Antônio guardava em casa foi roubado. Foi quando ele pensou que passaria fome pela primeira vez. Os filhos chegaram para visita-lo e não havia o que comer. A ajuda veio da igreja, lhe doou uma compra. "Deu para uns três meses", contou ele. Mas não foi o suficiente. Ele precisou pegar um empréstimo no banco para pagar as dívidas antigas e os remédios da esposa. Depois de muita insistência, ele ainda emprestou parte do valor a um neto, que não lhe pagou totalmente até hoje.

Desde o falecimento da esposa, com quem viveu por mais de 60 anos, seu Antônio vive com a filha, Eva. E as dificuldades continuaram. O problema no joelho melhorou depois de uma seção de fisioterapia. Agora, para ir ao mercado, perto da igreja, ele demora apenas sete minutos. Porém, para ficar realmente bom ele precisa continuar com o atendimento do fisioterapeuta, que pela rede pública é falho e pelos planos privados é caro.

Seu Antônio sofre também com um problema de estômago, que o impede de comer. Pesando apenas 40 quilos, ele tem esperanças de poder se consultar com um especialista quando sobrar dinheiro. “Eu acho que em setembro minha aposentadoria vai aumentar, mas eu não sei se aturo ate setembro".

 No ano passado, ironicamente no dia dos trabalhadores, dois assaltantes bateram à sua porta. Armados, eles ficaram uma hora revirando a casa à procura de dinheiro, que "de fato, não tinha".

Esquecido pelas pessoas, quando não explorado por elas, convivendo com problemas de saúde e a falta de dinheiro para as necessidades básicas, seu Antônio não poderia estar mais enganado quando disse “Se eu contar o que passo aqui, muita gente não acredita”. É fácil acreditar pois a história dele se assemelha à de muitos outros idosos. Infelizmente.






EDITADO: No quarto parágrafo, um trecho do texto passava a impressão de que a casa não foi doada ao morador porque os donos não quiseram cumprir a promessa. Para fins de esclarecimento, este trecho foi editado. Pedimos desculpas pela falta de clareza.

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NOTA DE ESCLARECIMENTO

A história do seu Antônio foi lida por muitas pessoas. Até agora, estatísticas do Google indicam mais de 20 mil visualizações aqui na página da matéria. Porém, por ter se espalhado tanto, a história gerou algumas reações negativas.

Um membro da família do seu Antônio, que preferiu não se identificar, pediu para fazer alguns esclarecimentos, que publicamos para dar o devido direito de resposta.

Ele afirma que muitos leitores ficaram com a impressão de que o Seu Antônio não tem família, o que obviamente não é verdade. A própria matéria especifica quantos filhos ele teve, os quais geraram netos e bisnetos.

Outra má impressão, percebida por este familiar, foi a de que o idoso passa fome, o que, segundo ele, não acontece.

Além disso, este membro da família contesta o título da matéria, já que não concorda que seja uma “infeliz velhice”, e afirma também que o empréstimo, feito pelo seu Antônio a um neto, já foi pago.

Nós do blog Antiga Mente pedimos desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas. A matéria toda foi baseada nos relatos de Seu Antônio.
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Os idosos têm muitas histórias para contar, mas poucas pessoas que se disponham a ouvi-las. Decidimos escutar o que eles têm a dizer.

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