A infeliz velhice de um trabalhador comum

Seu Antônio e a filha na varanda de sua casa. (Foto: Filipe Muniz)




Na beira da rodovia PR-090, afastada das residências comuns do distrito de Santa Margarida, em Bela Vista do Paraíso, existe uma casa muito simples, que resiste ao tempo. Ela fica escondida lá no alto do morro, atrás de uma enorme árvore centenária, e às vezes passa despercebida em meio à correria dos tempos modernos. Ali mora o senhor Antonio dos Reis, que também carrega algumas das características da casa. É um homem simples, que resiste ao tempo e vive esquecido pelas pessoas. Prestes há completar 90 anos, ele diz não ter muito que comemorar. “Se eu contar o que passo aqui, muita gente não acredita”, disse ele, já no começo da entrevista.  Antônio tem um problema em um dos joelhos, o que torna difícil uma simples caminhada até o mercadinho da esquina. Para caminhar até a igreja, a três quarteirões de sua casa, ele conta que chegou a gastar uma hora. Hoje lutando para viver apenas com o dinheiro da aposentadoria, ele se lembra muito bem dos tempos antigos, quando trabalhava nas fazendas.

Natural de Montes Claros, no estado de Minas Gerais, seu Antônio começou a trabalhar com sete anos. Como boa parte das pessoas da época, ele nunca foi alfabetizado. O pai dizia que era mais importante aprender a trabalhar: “Se não, vai aprender o que? Roubar? Não, trabalhar”. O primeiro serviço foi com o pai, quando aprendeu a cuidar da lavoura. Depois trabalhou colhendo algodão. Mas não gostou do trabalho. “As unhas ficam todas arrasadas”, explicou ele. Mudou de ramo. Trabalhou em plantações de cana antes de voltar para a lavoura. Roçou, carpiu, plantou e colheu. "Aprendi de tudo", conta.

O casamento aconteceu aos 22 anos. Sua esposa, Josefina Cardoso dos Reis, era conhecida da família.  Os pais dela apareciam de tempo em tempo para vender painas,  que serviam para encher os colchões e travesseiros. Essas eram as únicas ocasiões em que eles namoravam. Do casamento vieram sete filhos, quatro homens e três mulheres. Quatro  faleceram. Dois deles, um homem e uma mulher, com a doença de chagas, transmitida pelo Bicho Barbeiro; um com  anemia e outra por choque elétrico.  A terceira filha, Eva, teve derrame e hoje não fala e anda com dificuldade.

Eva, a filha de seu Antônio. (Foto: Filipe Muniz)

Do norte do Minas Gerais, seu Antônio se mudou para o norte do Paraná, onde vive nos últimos 35 anos. Trabalhando na fazenda Rancho Alegre, a profissão continuou a mesma. Com ela criou os filhos e os netos. A casa simples na qual mora hoje pertence aos donos dessa fazenda, que prometeram doá-la ao atual morador. Porém, depois do falecimento do antigo dono, a casa, juntamente com as terras da fazenda, passaram a fazer parte de um inventário, o que dificultou a doação.

Com o adoecimento de sua esposa, Josefina, seu Antônio teve que parar de trabalhar. Passou a viver de sua aposentadoria.  Ela, que sempre trabalhou, mas não tinha registro em carteira, não teve a mesma sorte. Foi então que a vida piorou para a família.  Em um determinado mês o dinheiro que seu Antônio guardava em casa foi roubado. Foi quando ele pensou que passaria fome pela primeira vez. Os filhos chegaram para visita-lo e não havia o que comer. A ajuda veio da igreja, lhe doou uma compra. "Deu para uns três meses", contou ele. Mas não foi o suficiente. Ele precisou pegar um empréstimo no banco para pagar as dívidas antigas e os remédios da esposa. Depois de muita insistência, ele ainda emprestou parte do valor a um neto, que não lhe pagou totalmente até hoje.

Desde o falecimento da esposa, com quem viveu por mais de 60 anos, seu Antônio vive com a filha, Eva. E as dificuldades continuaram. O problema no joelho melhorou depois de uma seção de fisioterapia. Agora, para ir ao mercado, perto da igreja, ele demora apenas sete minutos. Porém, para ficar realmente bom ele precisa continuar com o atendimento do fisioterapeuta, que pela rede pública é falho e pelos planos privados é caro.

Seu Antônio sofre também com um problema de estômago, que o impede de comer. Pesando apenas 40 quilos, ele tem esperanças de poder se consultar com um especialista quando sobrar dinheiro. “Eu acho que em setembro minha aposentadoria vai aumentar, mas eu não sei se aturo ate setembro".

 No ano passado, ironicamente no dia dos trabalhadores, dois assaltantes bateram à sua porta. Armados, eles ficaram uma hora revirando a casa à procura de dinheiro, que "de fato, não tinha".

Esquecido pelas pessoas, quando não explorado por elas, convivendo com problemas de saúde e a falta de dinheiro para as necessidades básicas, seu Antônio não poderia estar mais enganado quando disse “Se eu contar o que passo aqui, muita gente não acredita”. É fácil acreditar pois a história dele se assemelha à de muitos outros idosos. Infelizmente.






EDITADO: No quarto parágrafo, um trecho do texto passava a impressão de que a casa não foi doada ao morador porque os donos não quiseram cumprir a promessa. Para fins de esclarecimento, este trecho foi editado. Pedimos desculpas pela falta de clareza.

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NOTA DE ESCLARECIMENTO

A história do seu Antônio foi lida por muitas pessoas. Até agora, estatísticas do Google indicam mais de 20 mil visualizações aqui na página da matéria. Porém, por ter se espalhado tanto, a história gerou algumas reações negativas.

Um membro da família do seu Antônio, que preferiu não se identificar, pediu para fazer alguns esclarecimentos, que publicamos para dar o devido direito de resposta.

Ele afirma que muitos leitores ficaram com a impressão de que o Seu Antônio não tem família, o que obviamente não é verdade. A própria matéria especifica quantos filhos ele teve, os quais geraram netos e bisnetos.

Outra má impressão, percebida por este familiar, foi a de que o idoso passa fome, o que, segundo ele, não acontece.

Além disso, este membro da família contesta o título da matéria, já que não concorda que seja uma “infeliz velhice”, e afirma também que o empréstimo, feito pelo seu Antônio a um neto, já foi pago.

Nós do blog Antiga Mente pedimos desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas. A matéria toda foi baseada nos relatos de Seu Antônio.
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Filipe Muniz

7 comentários:

  1. Meu Pai trabalha na mesma fazenda que seu Antônio trabalhou, trabalham durante anos ao mesmo lado, é não me surpreende que ele não tenha recebido a casa como prometido, o patrão Sr Hermenegildo Sabatini já é falecido ha anos e os herdeiros nunca se importaram, seu Antônio merece todo meu respeito, vi por muitas vezes ele chegar a pé pra trabalhar é ir embora da mesma forma, trabalhar de chinelo no pé. Triste saber que as encontrá nessa situação.

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    1. Olá Cintia. Obrigado pelo comentário. Segundo familiares dos donos, a doação do terreno não foi feita porque depois da morte do antigo dono os bens passaram a fazer parte de um inventário, o que dificultou a doação. Não temos como afirmar a veracidade disso, mas é a versão da família.

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  2. Acredito que todos nos sensibilizamos com a reportagem e a situação desse senhor, estamos montando uma ação para ajudá-lo, agradeço desde já aqueles que de alguma forma puder ajudar, já estamos conseguindo a consulta, mas infelizmente não será só isso, terão exames, remédios, um pouquinho de cada será muito para esse senhor...!

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    1. Que boa notícia, Paula! Passe as informações para a gente pelo Facebook, por favor. Adoraríamos fazer outra matéria sobre as ações de vocês.

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  3. Olha, com todo respeito a quem deve a boa vontade de ajudar, para consultar especialista basta procurar um posto de saúde e o médico fazer o encaminhamento. Quando o caso é sério, pede urgência. Quem quiser ajudar mesmo, pegue o pedido do médico e procure o Ministério Público, que encaminhará um ofício aos órgãos municipais e, garanto, a consulta sai rápido. Sei pq precisei e uma consulta com um neurologista para meu pai e isso é desenrolou em 2 ou 3 dias.
    Quanto à casa, ele foi contemplado com uma casa do governo, a custo zero, é desistiu, preferiu permanecer onde estava.
    Acredito sim, que precisem e ajuda, mas não serão apenas doações momentâneas que resolverão seus problemas.

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  4. Muitos idosos preferem continuar nas casas que viveram boa parte da vida à ir para outro lugar, ou mesmo para asilos, por exemplo. Acho que temos que ter um pouquinho de compreensão com esta atitude deles. Até porque não sabemos os motivos que o levaram a desistir desta casa, se foi isso que aconteceu.

    Se as pessoas querem se reunir e ajudar, acho que devem fazer isso. Não vai resolver todos os problemas dele, mas já é melhor do que não fazer nada. Mais do que respeito, como você disse, uma boa ação desta merece aplausos.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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