De carça e bigode, até o fim da picada

Só com Dona Neuza, são mais de 54 anos (veja narrativa dela clicando aqui). Mas para ainda além disso, ele tem muita história para contar.

Era 27 de junho de 1950. Seu Zé tem boa memória. Tinha 12 anos de idade. Saído da zona rural do município de Iacanga (SP), chegava a Sabáudia (PR), depois de um dia e meio de viagem. “Escureceu, nói paremo em Assis. Posemo lá. Noutro dia cedo, saímo. Cheguemo aqui era uma hora da tarde”, diz.

No caminhão, vinham quatro mudanças: duas de pessoas solteiras e duas de famílias. “Mudamo num caminhãozinho 48, véi. Quatro mudança lá em cima... imagina... era só pauleira veia”, ele brinca.
Quando chegou, já tinha o terceiro ano do primário. Para completar o quarto, na nova cidade, tinha de andar seis quilômetros – a pé. Depois ajudou a construir o Colégio Sabáudia, onde estudou por mais uns seis meses.

Seu Zé também lidou com roça: “fomo trabalhar. Coiê café... Dispoi nói fomo morar no sítio; tocar empreitada.” Trabalhou mais 18 anos como vigilante bancário e ainda mais três como responsável por cuidar do ginásio de esportes do município. Então se aposentou.

Assalto ao banco
Era 9 de junho de 1982. Seu Zé não falha a memória. Um carro com cinco homens para em frente ao então Banco Sul Brasileiro, onde ele fazia guarda. Dois dos homens descem e entram. Junto com Seu Zé, está outro vigilante, de mesmo nome. “Eu e o compadre Zé tava encostado na parede do banco (do lado de fora, à porta). Eu falei: ‘esses cara num é daqui. É de fora. Vamo vê o quê que é.’ Quando nói viremo pra entrar no banco, vinha outro cara no meio da rua lá. (Chegando) Na beira do meio-fio, ele atirou.”

Como dois assaltantes já tinham entrado no banco, e Seu Zé e seu compadre, desconfiados, também resolveram entrar, um dos integrantes da quadrilha atirou, para evitar que os guardas interrompessem o assalto.

A bala, de nove milímetros, passou entre os dois compadres. "Depois ela tava lá, no chão. Nói peguemo ela. Nove milímetro. Fez um buracão assim na parede", gesticula.

Seu Zé conta que o carro em que eles estavam foi roubado na cidade de Dois Vizinhos. A mesma quadrilha, segundo ele, também fez assaltos a banco em outras cidades. "Depois, com o tempo, pegaram eles. Ih... eles assaltaram um punhado de banco: Banco do Brasil de Arapongas, de Rolândia... Lá em Arapongas eles atiraram na mão do Waldir (guarda daquele banco, conhecido de seu Zé). Quebrou o braço dele. Teve que amputar."

Com frio e carça curta


José de Oliveria (Foto: Danilo O'Lopes)

Ao sol, pra se esquentar, Seu Zé conta como era passar o inverno naquela época. "Não tinha blusa. Nem ouvia falar em blusa."
- E como é que fazia pra enfrentar o frio?
"Não sei. Não tinha frio, parece. O povo acostumava."

Ele foi usar blusa, pela primeira vez, só depois de casado. Dona Neuza que lhe comprou.

Pois então conta como era a vestimenta à época. Passando as mãos a pelo menos um palmo acima dos joelhos, diz que usavam "carça curta".
- Calção? Shorts?
"Não! Carça memo. Carça curta. Molecada assim, todo o mundo usava."

Talvez percebendo que seu interlocutor não tinha entendido muito, ele complementa: "Era uma carcinha, memo. Tipo um short, mai benfeitinho."

Um pequeno trator passa à rua e Seu Zé interrompe. Crítico daqueles que dizem que vivemos uma crise, ele comenta: "Aí, ó. Isso que é mordomia. De primeiro nói ia fazer o colégio ali, ó, batia o cimento tudo na mão, na pá. Hoje vai pegar um pedacinho de terra aí, manda me chamar a maquininha. Depois fala em crise. Que crise? Hoje todo o mundo tem mordomia."

Com bigode e carça comprida

O uso das calças curtas e compridas, segundo Seu Zé
Depois, para retomar o assunto, este entrevistador pergunta: "Então, bermuda era só criança que usava?" Seu Zé, indignado, responde: "Ah, no meu tempo não tinha bermuda, não, sô! De uns ano pra cá que começou esse negócio de bermuda."
- Não. Digo essas calças curtas, que o senhor fala.
"Ah, sim! Ixi... home não punhava aquilo mai nem que... Hoje eu fico oiano. Era o traje. O que tinha era isso aí. As molecada usava carça curta e os home, carça comprida. E as muié, só vestido. Não tinha carça comprida pra muié. De jeito nenhum. De uns ano pra cá que começou esse negócio de muié só andar de carça comprida. Não tinha, não. Só vestido."

Aos 13 anos, então, Seu Zé tornava-se já um homenzinho. Todo faceiro, admirava suas calças compridas, seguradas por uma cinta: "Eu num via a hora de pôr carça comprida. O dia que eu puis, só ficava oiano. Uma cintinha... Carça comprida era cinta; carça curta era uma arça, suspensório de pano (que passava por sobre os ombros)."

Depois, nunca mais usou as tais calças curtas.

A mesma coisa aconteceu com o bigode. Nunca tirou. Apareceu, ficou. "Desde o primeiro fio", diz.

Embora já fosse homem, Seu Zé só foi se casar aos 24. Ele mais D. Neuza tiveram quatro filhos: dois homens e duas mulheres. As calças compridas, usa até hoje. O bigode, também. Mas apesar de viçoso, Seu Zé declara: "Já pensei umas par de veiz de cortar, mai eu fico oiano... falo: 'agora num vou cortar mai, não. Já tá no fim da... no fim da picada, já, tamém.'"

Leia também a história de D. Neuza: "Era filha e era pai, era aluna e professora"

Unknown

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