Não tinha luxo. Andava-se descalço. Sapato era pra ir numa missa, num terço, num baile. Nem sacolinha plástica tinha: o calçado era embrulhado em papel. Levava-o até a entrada da cidade. Na primeira casa que encontrasse, pedia para lavar os pés e calçava-se os sapatos. Pronto, estavam feitos uma amizade e um ponto de parada. Eram tempos difíceis, aqueles. Mas Dona Neuza lembra com saudosismo.
Nascida em 1941, em Uraí, mesorregião chamada Norte Pioneiro do Paraná, entrou na escola com nove anos de idade. Antes de parar em Sabáudia, onde mora até hoje, passou por várias cidades do Estado: "Meu pai pegava fazenda para formar. Aí nuns tempos ele deixava a gente pra ir morar na cidade aonde ele ia. Mas nesse período aí, de uns dois anos, ele levava a gente pra morar também."
Manuel Barboza de Lima era o seu pai. Trabalhava de empreiteiro, o que no caso era "pegar fazenda pra formar". Isto significava chegar na mata virgem, fazer a derrubada, a queimada e depois "coviar" (fazer covas pro plantio do café). Café plantado, fim da empreita. Entregava-se a fazenda ao dono.
A filha que era pai
O pai de D. Neuza saía sozinho para pegar uma empreitada. Ele ia para a cidade onde ficava a fazenda a ser arroteada e lá mesmo arrumava gentes que trabalhassem com ele. Estes, D. Neusa diz que eram os "peões". "Naquele tempo tinha muita gente que não tinha família. Vinham do norte, do nordeste. Deixavam a família lá e vinham sozinhos. Aí eles trabalhavam como peões aqui."
Em 1957, já morando em Sabáudia, Seu Manuel saiu para pegar uma nova empreitada. Foi para Tapejara, no Noroeste do Estado. Nunca mais voltou. Os parentes foram procurá-lo. "Foram na delegacia de lá, tudo. Ele era conhecido lá, sabe, mas ninguém sabia dizer onde ele tava ou o que tinha acontecido", lembra D. Neuza.
Então com 16 anos, sendo filha primogênita de seis irmãos, também foi pai: "Tive que assumir, né?! ...Pai das crianças. Ajudar a trabalhar e cuidar dos irmãos. Os que não podiam trabalhar iam junto comigo pra eu cuidar."
A aluna professora
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| Neuza. (foto: Danilo / Edição: Filipe) |
D. Neuza ainda estudava quando começou a faltar professor na "escolinha" Santos Dumont. Tinha estudado só até o quarto ano do primário. Do primeiro ao quarto foi ensinar. "O que eu aprendi eu ensinava. Ficava lembrando o que a minha professora fazia pra me ensinar e fazia também, porque eu não tinha nada de didática, né?!"
Depois fez ginásio, magistério e cursou Ciências Sociais numa faculdade em Arapongas, município vizinho. Para estudar e fazer os trabalhos em casa, à noite, tinha que ser com lamparina. No magistério, que cursou em Astorga, outra cidade vizinha, D. Neuza faltou em algumas aulas por falta de dinheiro para a passagem. Pela mesma falta, perdeu até prova. "Teve uma vez que eu ainda não tinha comprado um livro de português, aí a professora não me deixou fazer a prova. Quem não tinha o livro não ia fazer a prova. E eu era a única que não tinha comprado ainda."
- E a senhora não falou que não tinha condição?
"Ela sabia. Falei que ainda não tinha dado, né, pra comprar. Mas ela não quis nem saber, não."
Os dotes de uma mãe sem recursos
Antes do pai desaparecer, Angelina Bergamasco de Lima, mãe de D. Neuza, costurava "pra fora" (para outras pessoas), para ajudar nas despesas. Depois, os filhos é que tiveram que ajudar. Com o dinheiro que juntavam, a mãe guardava debaixo do coxão, numa meia, o valor separado pro aluguel. Às vezes, o dono da casa não vinha receber. "Demorava dois, três meses. E o dinheiro ficava guardado. Podia não ter o que comer em casa. Mas o dinheiro do homem ficava guardado; ninguém mexia."
Com o dinheiro escaço, era preciso se virar nos dotes culinários. Para ter óleo pra fazer comida, Dona Angelina comprava barrigada de porco e dela tirava a gordura. Já para conseguir carne, comprava cabeça de boi. "Ela ia destrinchando, tirando uns pedacinhos de carne e aí fazia um ensopado pra todo o mundo comer", lembra D. Neuza.
Casamento
Logo que chegou em Sabáudia, conheceu José de Oliveira. Depois de uns dois ou três anos começou a namorá-lo. Casou-se aos 21 anos de idade. Naquele tempo, era raro uma moça esperar tanto assim para se casar. "A maioria casava com 16, 17, 18... se chegasse aos 18 já tava ficando passada, já", diz. Mas D. Neuza tinha uma boa justificativa: "Demorei pra casar porque tinha que ajudar minha mãe. Também não podia largar meus irmãos, pequenos."
Lições
Neuza Barboza de Lima Oliveira, a filha, pai, aluna e professora. Conhecida em toda a cidade. Não tem grandes riquezas, nem motivo algum para tamanha fama - apenas o nome. É com ele que ela entra e sai e é bem-recebida em todos os lugares. Este nome, não foi ela quem deu; no entanto, foi ela quem fez.

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