Salmoura: Tristeza e Angústias

“Aquele dia estava muito frio, a temperatura começou cair rápido. Ninguém conseguiu dormir naquela noite, ficamos todos acordados”.


Dona Maria com seu bisneto Luan (Foto: Bruno Lourenço)
Ligo pela manhã marcando uma entrevista com Dona Maria. Uma mulher simples, que apesar de seus 73 anos, se mantém forte e com muita saúde, que por telefone já começa a contar como foi aquele dia de 1975.

Maria é uma de muitos outros cidadãos que vieram para Londrina com suas famílias em busca de trabalho. Casou-se aos 12 anos, ela diz: -“foi muito bom, meu marido me tratava como uma filha”. Na década de 1950 era comum, as moças casarem cedo.

Teve 10 filhos. Hoje apenas sete estão vivos. Maria e seu marido sempre trabalharam na roça, sua única reclamação era nunca ter a carteira de trabalho registrada, -“enquanto estava com meu marido trabalhei 27 anos” afirma.

Quando pergunto, a ela, sobre as festas com resposta na ponta da língua diz: –“Eu não tinha tempo para festas. Os domingos eram para lavar roupas e fazer pão, para segunda-feira ir trabalhar novamente” afirma Dona Maria.  Seu lazer era ir à igreja nos domingos à noite com o pessoal que morava na colônia.

Pergunto a Maria sobre a geada de 1975, como foi passar por um período de muitas perdas, tristeza e angustias. Ela faz uma pausa na fala por um momento e suspira, -“Houve duas geadas, a primeira por volta de 1960 e a segunda em 1975,” conta.
Cafezal todo queimado pela geada (Foto: Imagem retirada da internet)

Na primeira geada Maria conta que foram pegos de surpresa, não tinham alimentos estocados. Deixando todos com fome. O único jeito de matar a fome era meio pacote de banha, um de arroz para durar quinze dias. Mãe de uma criança de colo, para amamentar o filho, tomava salmoura (água e sal). Durante as manhãs, seu marido pegava as espigas de milho, que encontrava na roça, para moer e cozinhar com sal para se alimentarem, -“Eles choravam de fome, não tinha o que dar”, afirma Dona Maria.

A segunda geada que ocorreu em 1975 foi considerada a pior no estado do Paraná, principalmente na região norte, a mais afetada pelas baixas temperaturas, onde existiam grandes plantações de café, principal economia do estado. Esta geada ficou conhecida como “Geada Negra” ela recebe este nome por se formar com temperaturas baixas e com ventos fortes.

“Aquele dia estava muito frio, a temperatura começou cair de tarde. Ninguém conseguiu dormir naquela noite, ficamos todos acordados. As crianças eram cobertas com pano de colher café, porque não tinha cobertor”, afirma Dona Maria.  As famílias aqueciam suas casas fazendo pequenas fogueiras no chão, esta era única forma. Quando amanheceu estava tudo congelado.
Estrada coberta de gelo (Foto: Imagem retirada da internet)

Informações mostram que, a geada que caíra sobre a região norte do Paraná, congelou as planta por dentro e as raízes, causando grandes perdas. Plantações inteiras de café foram perdidas.

Hoje, Dona Maria vive sozinha em seu apartamento de 43 metros quadrados, o qual ela cuida com esmero. E ao encerrar a entrevista ela diz: -“Foi feio meu fi! Geada igual aquela nunca mais quero ver, nem ouvir falar”.

Para saber mais sobre a geada:


Bruno Lourenço

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