Boa noite!
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| Luzivaldo, conhecido como Lucas, morador de rua. |
Era uma quinta-feira à noite, fui gravar um trabalho para faculdade, um mini documentário, no Centro Espírita Nosso Lar, em Londrina. Chegando lá, teria que esperar ao menos uma hora minha fonte, e percebi que todos chegavam e cumprimentavam um morador de rua, Lucas. Ele estava trabalhando como flanelinha. À medida que as pessoas entravam e conversavam com Lucas, fui me sensibilizando, era um carinho enorme.
Lucas
na verdade se chama Luzivaldo, tem esse apelido desde criança, todos na família
o chamam assim. Ele tem 51 anos e está há dois anos cuidando dos carros no
Nosso Lar. Ele me conta que foi muito difícil conseguir esse espaço para
trabalhar, “Foi uma guerra terrível pra eu conseguir isso aqui. Já veio até
ameaça”.
A
gratidão de Lucas e dos freqüentadores do centro são evidentes. “Eu só agradeço
a Deus, tem gente até que deixa o carro aberto aí. Às vezes só por esquecer,
mas às vezes me dizem ‘ah! Você está aí Lucas!’, é gratificante”. Durante a
entrevista, passou uma moça de carro e entregou um lanche a ele. “Não vim hoje,
mas não me esqueci de você Lucas!”, disse ela.
Na
década de 1980, sua família, natural de São Luís do Maranhão, deixa a cidade
para ir a Goiás, em busca de uma vida melhor. Mas Lucas não parou por lá, morou
no Rio de Janeiro, São Paulo, Foz do Iguaçu, entre outras cidades. Luzivaldo me
confessa que é morador de rua por opção, “É do coração mesmo”.
Luzivaldo
nutri um amor por Londrina e pelo Centro muito grande, “Essa cidade é
abençoada. Esse carinho que você vê aqui é uma dádiva, isso me prendeu aqui”.
Depois desses dois anos no Centro Espírita, ele diz se considerar Espírita
também, participa de palestras e passes, “Toda quarta-feira de manhã vou lá
cantar hinos com eles”. Ele completa, “Não tem palavra que pague essa forma de
dizerem pra mim ‘Muito obrigada, que Deus abençoe!’. Quando cheguei aqui e
escutei isso, me pegou, porque eu sempre abençoava minha filha desse jeito”.
A
trajetória de Lucas é extensa, como ele mesmo me confessou, já fez muita coisa
errada. Mas hoje, vê a vida de uma forma diferente, “Tipo assim, dizem que metade
da vida você faz ‘cagada’, e a outra metade é pra consertar. Não fazer mais
besteira é uma forma de consertar né? A vida é uma escola. Eu bebo, fumo e faço
até coisas piores, mas aqui é tudo na minha responsabilidade, quando estou
aqui, tudo muda”, afirma ele.
No
decorrer da entrevista, pergunto a Lucas sobre a violência que os moradores de
rua sofrem, “A violência é grátis. Acredito que a maior violência para o
morador de rua, é o próprio morador de rua. Aqui, me tratam bem, porque eu
trato eles bem, é recíproco”, conclui ele.
Em
tempos de tanto ódio, ao ver toda essa consideração com Lucas, saí de lá grata,
por saber que ainda existem pessoas que se solidarizam-se com o próximo. Como
um dos maiores nomes do segmento Espírita no Brasil, Chico Xavier disse: “O Cristo não pediu muita coisa, não exigiu que as
pessoas escalassem o Everest ou fizessem grandes sacrifícios. Ele só pediu que
nos amássemos uns aos outros”. Lucas é amado, e ele mesmo fala sobre a
confiança, honestidade e respeito que tem e recebe, como em uma família, “é
tipo uma família aqui. É uma dádiva. Nunca deixei de receber ao menos um boa
noite!”.

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